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1. Aspectos interculturais no ensino de português língua estrangeira (ple) Imprimir E-mail

Resumo
Os aspectos relacionados à interculturalidade interferem na nossa prática docente. A compreensão de que a cultura põe em evidencia aquilo que somos e  a maneira como usamos a língua, pode ser um importante fator diferenciador no contato com o aprendiz de PLE.

Palavras-chave: Português como segunda língua, Interculturalismo, ensino de cultura

Abstract: The intercultural aspects interfere with our teaching practice. The understanding that culture highlights what we are and how we use our native language, can be an important differentiating factor in the contact with the foreigner who is learning Portuguese.

Keywords: Portuguese as second language, Intercultural studies, culture teaching

 

Lingua e Cultura

Num mundo globalizado, onde as informações, os capitais e as mercadorias atravessam fronteiras, torna-se inevitável que aprendamos a conviver com realidades diferentes da nossa. Portanto, a comunicação intercultural é cada vez mais uma necessidade para o entendimento entre os povos. Diante disso, podemos afirmar que a comunicação intercultural contribui para a criação de um clima de respeito e de tolerância entre os povos através do estudo das diversidades culturais.

As culturas são diferentes em suas línguas, nos padrões de comportamento e de valores, de grupos sociais distintos, ou seja, fazer uma afirmação genérica baseada apenas no modo de ser de um determinado grupo não corresponderia à variedade de padrões culturais existentes nesse mesmo grupo. Logo, o objetivo da comunicação intercultural é analisar as diferenças culturais existentes, a fim de facilitar as relações entre culturas diferentes (Bennett, 1998). Com essa finalidade, abordamos, neste artigo, os estudos realizados por Milton Bennett (1991) e Edward Hall (1988) sobre comunicação intercultural e alguns aspectos que contribuem para este estudo acerca da influência desses elementos no cruzamento cultural. 

Cultura comunica e diferencia

Quando Hall (1988) afirma que “cultura é comunicação”, demonstra que entre cultura e língua existe uma relação muito estreita. Embora a língua seja considerada como o maior meio de comunicação, para o autor, cerca de 80% da informação que recebemos ocorreria de modo não-verbal, além de quase sempre ocorrer fora da nossa percepção. Para Hall, cultura é um sistema de criar, enviar, emitir, armazenar e processar informações.

Nesse sentido, as comunicações culturais são muito mais profundas e mais complexas do que simplesmente a forma correta de se falar ou escrever uma mensagem:

Comunicações culturais são mais profundas e complexas do que as mensagens faladas ou escritas. A essência da comunicação inter-cultural tem mais a ver com a liberação de respostas do que com o envio de mensagens.É muito mais  importante  liberar a resposta certa do que enviar a mensagem certa.[Todas as citações de texto original do inglês estão traduzidas por mim para o Português para dar fluidez ao texto. Os originais estão listados nas notas ao final do artigo.]

Para Hall, “quando falhamos na negociação das regras básicas de comportamento e de comunicação, é impossível fazer com que a cultura funcione, pois isso depende de um trabalho permanente voltado para a observação do modo como as pessoas vivem e se relacionam”. Por essa razão, seus estudos se concentram nas informações não-verbais de uma cultura, ou melhor, nos atos comunicativos ou nas expressões não-verbais que são responsáveis pelas grandes distorções encontradas nas relações de comunicação intercultural. Isso ocorre porque os atos comunicativos são vistos como projeções da sua própria cultura. Embora isso ocorra, não somos capazes de alcançar todas as implicações envolvidas numa interação quando nos comunicamos. Hall afirma que a cultura esconde muito mais do que revela aos seus participantes. Além disso, apresenta alguns aspectos fundamentais para uma melhor compreensão cultural, por meio dos conceitos que estão relacionados a essa cultura escondida. (Hall,1988).

Interessa-nos, neste artigo, abordar os seguintes conceitos a partir dos estudos de Hall: o tempo, o espaço pessoal e o contexto. No mundo, encontramos vários sistemas de tempo, mas Hall classifica-os em duas modalidades básicas: tempo monocrômico e tempo policrômico. As culturas que adotam o tempo monocrômico são aquelas em que o tempo é considerado um sistema de classificação usado para organizar a vida e estabelecer prioridades. Nessas sociedades, o pensamento é organizado de forma linear, os indivíduos concentram-se em uma atividade de cada vez e estão voltados para o cumprimento dos prazos. O planejamento é sempre prévio, além de ser considerado inalterável ou “sagrado”, pois deve ser cumprido. O tempo é percebido como algo tangível, isto é, pode ser perdido, usado ou guardado. Para pessoas de culturas monocrômicas, a melhor maneira de executar as suas ações é evitando-se as interrupções. Geralmente, esse tipo de sistema é o que caracteriza as culturas de origem anglo-saxônica, como a americana, por exemplo, para quem expressões como “tempo é dinheiro” e “custo e benefício” estão acima dos relacionamentos pessoais. Portanto, o tempo, nessas culturas, é usado como uma forma de organizar a vida de acordo com as prioridades.

As culturas que adotam um sistema de tempo policrômico são exatamente o oposto. Nesse tipo de cultura, os indivíduos fazem várias coisas simultaneamente e estabelecem relações pessoais profundas com outras pessoas. Por isso, tendem a dar mais ênfase a um encontro pessoal do que àquilo que foi agendado anteriormente. Família e amigos têm precedência sobre os compromissos, e, geralmente, transformam seus clientes em grandes amigos, gerando um desejo mútuo de ser útil, criando amizades que duram uma vida toda. Pessoas que vivem nesse tipo de cultura tendem a ter um nível baixo de concentração e estão sujeitas a interrupções; consideram os compromissos marcados como um objetivo a ser conseguido, se possível; mudam de planos freqüentemente e preocupam-se mais com aqueles que lhes são próximos, como a família, os amigos e os colegas de trabalho, do que com a sua privacidade. Segundo Hall, as culturas da América Latina e a árabe adotam um sistema policrômico de tempo.

Cultura e espaço social

Outro conceito usado neste trabalho é o de espaço pessoal. Segundo Hall, o espaço está relacionado ao fato de cada pessoa ter em volta de si uma bolha invisível que se expande e se contrai dependendo de algumas variáveis, tais como o relacionamento entre as pessoas, o nível de proximidade ou de distanciamento entre elas e o estado emocional ou a bagagem cultural . O autor destaca que, em culturas como as de origem latina, a tendência é que a bolha seja muito menor do que em culturas de origem anglo-saxônica, nas quais os espaços pessoais são bem demarcados, e qualquer tentativa de proximidade maior pode ser considerada uma atitude grosseira ou invasiva. Segundo Meyer (2001), no Brasil a bolha é mínima, favorecendo a proximidade e o contato físico entre as pessoas. Os atos de agradecimento na cultura brasileira tendem a ser acompanhados por gestos, como por exemplo, abraços, beijos, tapinhas nas costas, que às vezes ultrapassam o limite do bom gosto.

Como dissemos inicialmente, a comunicação, de acordo com os estudos de Hall, ocorre através de expressões não-verbais que representam cerca de 80% dos atos comunicativos. Por isso, o autor enfatiza a importância de um estudo acerca das informações que podem ser veiculadas no contexto, isto é, os elementos não-verbais que se combinam para produzir a compreensão de um determinado evento que culturalmente possui proporções diferentes.

O contexto é a informação que cerca um evento, que está intrinsecamente ligado com o significado daquele evento. Os elementos que se combinam para produzir um dado significado - eventos e contexto - são em proporções diferentes, dependendo de uma escala de alto a baixo contexto (Hall 1981, apud Oliveira,2001).

Com essa finalidade, Hall define dois tipos de contexto: comunicação de baixo contexto (CBC) e comunicação de alto contexto (CAC). A comunicação dealto contexto caracteriza-se por um grande número de informações veiculadas através de recursos não-verbais, em que o código lingüístico transmite apenas parte das informações. No CAC, as relações são muito mais baseadas nos sentimentos, na intimidade e em elementos como status, faixa etária, linguagem corporal e nível de proximidade entre os falantes.

"Culturas de alto contexto, tendem a encontrar um significado oculto ou profundo em uma palavra, frase ou situação, considerando não só a palavra falada, mas outras influências periféricas, como o estado ou idade das pessoas envolvidas, do ambiente,do nível social e da linguagem corporal - você diz isso, mas os seus olhos querem dizer mais alguma coisa.(Hall 1981, apud Oliveira 2001).

A comunicação de baixo contexto caracteriza-se pela transmissão das informações através do uso explícito do código, ou seja, as informações estão nas palavras e nas frases, ou melhor, nas circunstâncias literais que envolvem uma determinada situação.

 

Culturas de baixo contexto, tendem a concentrar-se na definição literal de uma palavra ou frase, ou na circunstância literal de uma situação. Estas culturas não dependem de influências periféricas para decifrar uma mensagem e, em vez disso levam a mensagem ao seu valor nominal - isto é o que você disse, então é isso que você quer dizer (ibid: 6).

Um dos desafios da comunicação é capacitar o falante a perceber o tipo de contexto e qual deve ser o nível de informação adequado a cada situação:

 "Um dos grandes desafios de comunicação na vida é encontrar o nível adequado relativo ao contexto e necessário em cada situação.Muita informação leva as pessoas a sentirem que estão sendo rebaixadas; pouca informação pode fazê-las se sentirem deixadas de fora "(Hall, 1988:9).

De acordo com Oliveira (2001), a cultura brasileira é caracterizada como comunicação de alto contexto (CAC), ou seja, as relações pessoais tendem a ser mais próximas, íntimas e pessoais, e o contexto interacional veicula a maior parte das informações.

Para Hall, a maior parte das nossas ações é realizada de forma inconsciente, ou seja, sem que nos demos conta das suas reais motivações. Hall assinala que, no momento em que estivermos mais conscientes acerca dessas motivações, estaremos mais próximos de um conhecimento intercultural eficiente.

Cultura: objetiva e subjetiva

Além dos conceitos apresentados por Hall, abordamos também os conceitos de cultura objetiva ecultura subjetiva,retirados dos estudos de Bennett (1991). Segundo o autor,o conceito de cultura pode ser entendido sob dois aspectos diferentes. O primeiro está relacionado à cultura como uma forma de expressão das artes, da literatura, do teatro, das músicas clássicas, enfim, refere-se à cultura institucionalizada. Esse tipo de cultura é chamado de cultura objetiva e inclui os aspectos sociais, políticos, econômicos e o sistema lingüístico que estão relacionados à história de um povo. Existem muitos cursos que se dedicam ao estudo da cultura de outros povos, entretanto, esse fato não está relacionado com a comunicação intercultural, nem com uma aproximação face a face entre culturas diferentes, pois preocupa-se apenas com o conhecimento e não em gerar competência cultural. (Bennett, 1993).

O segundo conceito de cultura refere-se aos aspectos psicológicos que caracterizam um determinado grupo social, podendo ser entendido como o resultado das manifestações abstratas desse grupo, como por exemplo, suas crenças, valores, hábitos e, principalmente, a maneira como os falantes usam a língua. A cultura subjetiva, portanto, caracteriza-sepelas várias realizações de base psicológica que definem o comportamento e o modo de pensar de uma determinada sociedade:

Bennett destaca que o foco da comunicação intercultural é o estudo das diversidades culturais, isto é, para os interculturalistas, a preocupação é apresentar as diferentes formas de expressão que cada cultura adota em relação ao uso da língua, ao comportamento verbal e não-verbal, aos padrões de comportamento e de pensamento, aos estilos de comunicação, aos seus valores e hábitos. Para o autor, entender as motivações culturais para esses fatores pode facilitar o cruzamento cultural, minimizando uma série de conflitos que, muitas vezes, ocorrem pela falta de tolerância com as diferenças uns dos outros (Bennett, 1991).

Cultura e o ensino de PLE

Em quase todas as culturas, as pessoas aprendem técnicas que ajudam a manter a comunicação e ajudam a sinalizar sentimentos e atitudes, cuja finalidade é evitar as dificuldades interpessoais. Dessa forma, ser interculturalmente hábil é uma capacidade que envolve muito mais do que simplesmente traduzir fórmulas de polidez de uma língua para outra. Por isso, o estudo das relações que se referem à comunicação intercultural tem como base as formas próprias de pensar de cada grupo, como suas idéias, o modo como se comunicam, o comportamento que adotam em determinadas circunstâncias e que caracteriza cada cultura de forma distinta. Esses elementos servem para organizar o sentido pessoal de coesão interna dos membros do grupo (Scollon, 2001).

Ao estudarmos os aspectos culturais que envolvem determinadas culturas, estamos nos referindo a um sistema de símbolos e significados que envolvem categorias e regras sobre relações e modos de comportamento compartilhados pelos membros de um grupo social. Em outras palavras, esse sistema é um conjunto de mecanismos de controle, planos, receitas, regras e instruções que governam o comportamento humano (Laraia, 2002). Essa constatação nos permite afirmar que “homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas .”

Segundo Laraia, o modo como cada cultura percebe o mundo gera uma organização particular de determinados valores, apreciações de ordem moral e comportamentos sociais. Até mesmo as posturas corporais são produtos de uma herança cultural, por isso, podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características, como os modos de agir, vestir, caminhar e comer, e principalmente pelas diferenças lingüísticas.

Portanto, analisar os aspectos culturais e interculturais envolvidos no aprendizado do português como língua estrangeira a partir da forma como nós brasileiros usamos a língua, pode contribuir para um ensino muito mais eficiente. Ou seja, ensinar ao aprendiz de PLE as principais expressões utilizadas e os aspectos socioculturais que estão presentes nesse tipo de interação pode contribuir para um melhor entendimento do comportamento lingüístico e social do brasileiro.

 

Referências bibliográficas

BENNETT, M. J. "Intercultural communication: a current perspective". In:Basic concepts of Intercultural  Communication. Yarmouth: Intercultural Press, p.1-34, 1993.

HALL, E.T. "The power of hidden differences". In: BENNETT, M. J. (Ed.). Basic concepts of intercultural communication – selected readings. Yarmouth: Intercultural Press, p. 53-67, 1988.

HARRISON, Phyllis. A. Behaving brazilian – a comparison os brazilian and north american social behavior. Newbury House publishers: Rowley-USA, 1983.

LARAIA, R. B. Cultura: um conceito antropológico. 12a ed. RJ: Jorge Zahar, 2002.

 

Notas:

(1) “Cultural communications are deeper and more complex than spoken or written messages. The essence of cross-cultural communication has more to do with releasing responses than with sending messages. And it is more important to release the right response than to send the right message” (Hall 1988:53).

(2) “Context is the information that surrounds an event; it is inextricably bound up with the meaning of that event. The elements that combine to produce a given meaning – events and context – are in different proportions depending on a scale from high to low context” ( Hall 1981, apud Oliveira  2001:6).

(3) “High-context cultures tend to find hidden or deep meaning in a word or phrase or situation by considering not only the spoken word, but other outlying influences, such as status or age, of the people involved, phisycal environment, and body language – you say this, but yours eyes say something else” (Hall 1981, apud Oliveira 2001:6).

(4) “Low-context cultures tend to focus on the literal definition of a word or phrase, or the literal circumstance of a situation. These cultures do not rely on outlying influences to decipher a message and instead take the message at face value – this is what you said, so this is what you mean” (ibid:6).

(5) “One of the great communications challenges in life is to find the appropriate level of contexting needed in each situation. Too much information leads people to feel they are being talked down to; too little information can mystify them or make them feel left out” (Hall 1988:9).


  1. Este artigo é um recorte de um estudo maior, a saber: GRIPP, Maristela dos Reis Sathler. “Imagine, não precisava...” ou rituais de agradecimento no português do Brasil com aplicabilidade em português como segunda língua para estrangeiros. Rio de Janeiro, 2005. 104p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

 

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