| 3. Portunhol : fossilização consentida da interlíngua de hispanofalantes aprendizes de PLE?* |
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Resumo: Palavras-chave: fossilização, interlíngua, recepção da fala, Português Língua Estrangeira (PLE)
Abstract: Keywords: fossilization, interlanguage, speech reception, Portuguese as a Foreign Language (PLE)
Introdução Uma característica da produção oral e escrita em LP dos hispanofalantes é o chamado “portunhol”, interlíngua inicial que muitas vezes vira a forma final da proficiência, caracterizando uma fossilização. Selinker (1980, p 55) descreve a fossilização como sendo aqueles itens, regras e subsistemas lingüísticos que os falantes de uma língua materna tendem a conservar em sua interlíngua com relação à língua alvo, sem importar a idade do aluno ou o quanto de conhecimento tenha adquirido da segunda língua. Schumman (1978, p.102-106) estudando o processo de aculturação, estabelece uma conexão entre o processo de fossilização e elementos culturais em contato. O processo de aculturação, segundo Schumman (op.cit.), tem a ver com a integração social de um indivíduo estrangeiro dentro da nova cultura e é determinado por dois fatores: a distância social e a distância psicológica do indivíduo com relação à cultura da língua alvo. Para o autor a distância psicológica é difícil de ser controlada porque depende de características individuais. Já a noção de distância social envolve a relação entre dois grupos sociais em situação de contato, mas que falam línguas diferentes – grupo de aprendizes da L2 e o grupo da LAV(língua alvo). Esta relação pode ser positiva ou negativa. Quanto mais próxima for a relação entre os dois grupos mais facilmente se dará a aculturação e, conseqüentemente, melhor será a aprendizagem da língua alvo. Quanto mais distante o relacionamento entre eles, mais baixo será o rendimento lingüístico pela falta de aculturação. Segundo esta descrição a proximidade cultural e lingüística seriam fatores que facilitariam a aquisição de L2. Então, por que o grau de fossilização em hispanofalantes no Brasil é tão alto? Vejamos. Vários trabalhos na área tentaram descrever e caracterizar a gramática desta interlíngua e explicar as causas da fossilização. Foram apontados, neste último caso, razões de ordem lingüística e comunicativa: a proximidade formal de ambas as línguas faz com que os hispanofalantes consigam se comunicar com uma certa facilidade e, não raro, deixam de progredir na aprendizagem da língua-alvo, o Português (Santos, 1999, pp 49-50). Devido à semelhança formal e a inteligibilidade mútua entre as estruturas formais do espanhol e do português, o falante de espanhol é considerado um falso iniciante (Santos, 1999, p. 53). A prematura satisfação das necessidades de comunicação é apontada como causa da fossilização da interlíngua do português por hispanofalantes, comumente chamada de “portunhol”. . Mas será que o problema é unilateral, ou seja, é o falante de espanhol que se acomoda no estágio inicial da sua interlíngua? Não haveria uma excessiva permissividade por parte do receptor brasileiro que, de alguma forma, vem a ser também uma das causas desta fossilização? Por outro lado, haveria também causas de natureza “social”? A escolha, por exemplo, entre ficar ou eliminar o sotaque da língua materna é grandemente influenciada pela forma como nossos interlocutores percebem a nossa fala (Barcelos, 2002,p 14). Isto sugere que também a recepção pode influenciar os processos de fossilização da interlíngua do aprendiz hispanofalante. Esta segunda hipótese supõe que a recepção da fala estrangeira é uma variável importante no processo de fossilização. Por outro lado,há fatores sociais como a identidade cultural e lingüística do brasileiro e o filtro ideológico por trás dessas atitudes (Lippi-Green, 1997, apud Barcelos 2002, p 14). O desenvolvimento de estratégias de comunicação, apontadas por Selinker (1972, p 98.) como uma característica da interlíngua, pode explicar em parte este fenômeno. As estratégias de comunicação são tentativas de resolver problemas no uso da língua. O aprendiz coloca a comunicação como objetivo central , descuidando da correção formal. Quando o interlocutor também não se preocupa com este aspecto, o falante estrangeiro pode ficar indefinidamente usando essas estratégias achando que fala bem. Método de observação O trabalho que desenvolvi como conclusão do meu curso de mestrado tentou encontrar algumas respostas a esses questionamentos. Tive como cenário a cidade de Brasília, capital federal, onde se localizam as sedes das embaixadas e de vários órgãos internacionais. Na Universidade de Brasília (UnB), encontramos o Programa de Ensino e Pesquisa em Português (PEPPFOL) onde são ministradas aulas de língua portuguesa para alunos provenientes de várias partes mundo. O número de estrangeiros residentes na cidade é, se comparado a outros centros, bastante significativo. Para atender à demanda pelo ensino de português como segunda língua, a Universidade de Brasília, através desse programa, oferece vários cursos de Português tanto para a comunidade externa como para seus alunos estrangeiros regularmente matriculados nos cursos de graduação. As etapas percorridas pela pesquisa foram, primeiramente, a observação e o estudo de depoimentos orais de seis hispanofalantes provenientes de países da América Latina, agrupados de acordo com o tempo de residência no Brasil, isto é, três sujeitos com mais de quatro anos (residentes de forma permanente, tempo que segundo Selinker é suficiente para considerar os erros como fossilização) e três com menos de um ano (todos eles estudantes).Estes três últimos alunos do nível intermediário no curso de Português para Estrangeiros oferecido pelo Programa de Ensino e Pesquisa em Português para Falantes de Outras Línguas (PEPPFOL) da Universidade de Brasília (UnB). Gravei entrevistas com os sujeitos perguntando a eles sobre a sua vida e impressões do novo pais e sua língua . Análise Depois de coletados esses registros, os mesmos foram transcritos, listados os erros (com a nomenclatura usada por Selinker ) , sendo esses trechos colocados numa fita única. Depois do levantamento, a fita foi ouvida por falantes nativos de português que atuaram como um painel de juízes.Além da fita, os juízes receberam um formulário com a transcrição dos trechos que iriam ouvir. Cada formulário teve quatro colunas, três delas padronizadas, referindo-se a três tipos de erro comunicativo (Richard,1974). Na quarta, os sujeitos puderam fazer comentários sobre cada erro.
Os resultados da análise dos juízes foi a seguinte: Porcentagem de erros baseada no balanço comparativo dos formulários dos respondentes
Os números falam por si só, há uma grande tolerância aos erros tanto lingüísticos como comunicativos. Tentemos entender a situação.A recepção da fala estrangeira está relacionada com o filtro ideológico (Barcelos, 2002). O filtro ideológico é a nossa valoração com respeito à comunidade lingüística da qual provem o estrangeiro, fazendo com que algumas línguas e sotaques sejam percebidos como charmosos e outros como ruins. Aqui encontramos, com respeito aos erros, uma tolerância muito grande. Menos de 3 % dos erros foram considerados irritantes e menos de 7 % como impedindo a comunicação. Vejamos então algumas considerações sobre o lugar do Espanhol na sociedade brasileira e a relação dessa imagem com a identidade lingüística do brasileiro . Na história e memória das línguas estrangeiras no Brasil o espanhol está associado a um imaginário de “língua parecida”. Sua materialidade visual e sonora sustenta esse imaginário reforçado por alguns discursos publicitários que vendem a necessidade do aprendizado do espanhol com o objetivo de não se enganar com os falsos cognatos . Do outro lado temos a identidade lingüística brasileira. Esta se forma a a partir de uma grande separação. O brasileiro convive com uma língua que tem uma oralidade não legitimada na escrita da escola, e uma escrita (escolar) não legitimada em sua oralidade(Orlandi, 1998,p 129). O ensino formal insiste em focalizar a gramática e toma os seus modelos do português europeu, ignorando a língua falada e usada no dia-a dia que se originou lá na colônia da miscigenação de europeus, índios e africanos, e que é a primeira língua de 95 % da população dos pais (Orlandi, 1998). Estes dois caminhos então representam um dos pontos no qual a recepção da fala de um estrangeiro mexe com a constituição do sujeito brasileiro: a identidade lingüística brasileira. O que está em jogo do ponto de vista lingüístico para um brasileiro que escuta um estrangeiro são essas variáveis. A identidade lingüística brasileira está marcada por esta desestabilização entre oralidade e escrita (esta escrita específica, escolar). Da noção de equívoco em português entra em jogo a própria constituição da identidade da língua materna e sua relação, no plano do imaginário, de semelhança/dificuldade com o Espanhol. Seguindo as considerações anteriores decidi analisar a recepção da fala estrangeira por parte deste painel de juízes.Na ficha dos respondentes fiz a seguinte pergunta para eles: 1-Habitualmente você aceita os erros de estrangeiros falando português? A resposta deles está no seguinte quadro:
Fica clara na resposta dos respondentes 3 e 4 que a privilegiada é a comunicação superando a correção gramatical. Na resposta do respondente 6 aparece um fenômeno que tem a ver com a idéia que existe no Brasil sobre o lugar da língua portuguesa dentre as línguas do mundo. O brasileiro não considera o português como língua internacional e por isso acha normal os estrangeiros não conhecerem nem se preocuparem em aprender a sua língua. Vejamos agora a resposta à seguinte pergunta 2-“Em que aspectos cometem mais erros?’”.
Para cinco dos respondentes os aspectos mais importantes têm a ver com a correção gramatical das frases (concordância verbal, concordância nominal e erros léxicos/construção). Cinco apontam a dicção, a expressão oral e só a última aponta o sotaque. Parece haver uma incongruência entre a resposta à pergunta anterior e esta ultima. Na anterior privilegiava-se a comunicação, aqui a preocupação maior é com a correção gramatical. Essa incongruência não é casual. A percepção do erro tem a ver com a identidade lingüística do brasileiro antes mencionada. Como o espanhol está associado a um imaginário de língua parecida, de língua próxima – sua materialidade visual e sonora sustenta este imaginário – o falante de espanhol é reconhecido como um quase nativo, e, portanto, sua produção está sendo avaliada nos termos em que é avaliada a produção de um falante nativo (Celada, 2002). Concluindo Podemos concluir portanto dos dados recolhidos neste trabalho que o interlocutor brasileiro desconsidera a grande maioria dos erros cometidos pelos falantes hispanos. Por outro lado, cobra dos sujeitos uma correção gramatical semelhante à de um nativo da língua portuguesa. O primeiro aspecto parece contribuir para que a proficiência em português dos sujeitos não evolua. O segundo aspecto demonstra uma ambigüidade na atitude do interlocutor com respeito à fala do hispanofalante. Assim, segundo os dados recolhidos na pesquisa, podemos considerar a recepção “tolerante” do interlocutor, somada a outros aspectos, como um dos fatores que favorecem a fossilização da interlíngua inicial de hispanofalantes adquirindo o português do Brasil, principalmente em ambiente natural . Por último, quanto a outro aspecto da recepção da fala estrangeira analisado aqui, podemos dizer que há uma atitude positiva com respeito ao sotaque de hispanos falando português do Brasil. Se consideramos o forte sotaque dos hispanofalantes que moram aqui, essa atitude também pode ser considerada como um dos fatores que contribuem para a fossilização da interlíngua deste grupo. Podemos citar ainda algumas causas sociais, como um filtro ideológico baixo que faz com que a recepção do erro e do sotaque dos hispanofalantes no Brasil seja bastante permissiva e positiva, gerando uma espécie de acomodação no falante estrangeiro. Essa atitude sem dúvida tem a ver com o caráter receptivo e amigável da sociedade brasileira, na aceitação do estrangeiro em geral , e claro, marcando assim a sua identidade. Para o professor de PLE fica o alerta. Deverá saber lidar com essa realidade que, se de um lado tem um aspecto favorável que facilita o processo de integração do aluno estrangeiro à sociedade brasileira aumentando a sua motivação integrativa (Gardner e Lambert, 1986, p123) e diminuindo os efeitos do choque cultural (Brown, 1994, p.87) e a distância social (Shumman, 1978, p.54), por outro lado , dificulta a produção lingüística de qualidade do hispanofalante.
Referências Bibliográficas: BARALO, M. , Errores y Fosilización. Madrid: Universidad Antonio de Nebrija, 1996. BARCELOS, A.M. ,What´s wrong whith a Brazilian accent ?, em Revista Horizontes a2 n1, Ed. UnB, Brasília 2002. BROWN, H. D. Teaching by principles: an interactive approach to language pedagogy. New Jersey: Prentice Hall, 1994. CAVALCANTI CUNHA, M J ; SANTOS ,P Tópicos em português língua estrangeira, Editora UnB , Brasília 2002. CELADA , M. T., O espanhol para o brasileiro. Uma língua singularmente estrangeira.Tese de Doutorado. Unicamp/IEL, 2002. CORDER, S. P. , Error Analysis and Interlanguage. Inglaterra: Oxford University Press, 1981. _____________ Idiosyncratic dialects and error analysis. em: International Review of Applied Linguistics. Inglaterra: Oxford University Press, 1971. _____________ La importancia de los errores Del que aprende una lengua segunda. Em: MUÑOZ LICERAS, J. La adquisición de las lenguas extranjeras. Madrid: Visor, 1992. GARDNERe LAMBERT , Attitudes and motivation in second language learning, Rowly, Massachusset :Newbury Press, 1986 ORLANDI, E. Identidade lingüística escolar. Em : Signorini, I. (Org.). Língua(gem) e identidade. Elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas: FAPESP, FAEP/Unicamp: Mercado de Letras, p. 203-212, 1998. RICHARDS,J. ,Error Analysis ,Londres ,Longman ,1974. SANTOS, P.,O ensino de Português como segunda língua para falantes de espanhol: teoria e prática. EmCUNHA, M.J. e SANTOS, P. Ensino e pesquisa em português para estrangeiros.Editora UnB ,Brasília , 1999. SELINKER. L. ,La Interlengua. em LICERAS, J. M. op. cit. Tarone, E : Comunication strategies foreigner talk,and repair in interlanguage em: Language Learning , 30 ,1980. SHUMANN, J ., The acculturation model for second language acquisition , em Gingras, R (ed) , Second language acquisition and foreign language teaching. Arlington, Virginia, Center for Applied Linguistics , 1978.
*O presente artigo esta baseado na Dissertação : Processo de fossilização na interlíngua de hispanofalantes aprendizes de português no Brasil: acomodação consentida? defendida com sucesso no PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA APLICADA do DEPARTAMENTO DE LINGUAS ESTRANGEIRAS E TRADUÇÃO no INSTITUTO DE LETRAS da UnB ( Universidade de Brasília). Orientação: Profª. Dra. Percília Lopes Cassemiro dos Santos.
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